terça-feira, 3 de julho de 2012

ELECTRICAL STAND-UP

Foi aqui há uns dias atrás que o Alberto me avisou do filocafé 'Electricidade',
algo que quase logo a seguir me veio a ser confirmado pelo Vinagre. Tinha sido por
volta das cinco da tarde que o tinha encontrado no café Barcarola – Calar Rabo –
Obra Clara – Cabra Oral (são anagramas que faço com o nome do estabelecimento) –
Só faltava um eme para 'carambolar'...
O café Barcarola, fica ali na paranhóica, paranhókia, de Paranhos, onde
ambos temos situadas as casas onde vivemos....
O Alberto estava sentado lá, confraternizando num beberete, com o Paulo, o
arrumador de carros do sítio.
– Um aparte para vós: vou, por isso, procurar não prejudicar, em nada, a imagem
do Paulo (não o diminuindo mesmo com a maneira como o tratam, de 'Paulinho'), que,
aliás, nem conheço muito bem, nem está aqui presente; pelo contrário, portanto,
sempre respeitando o que tiver que ser respeitado na sua pessoa –.
Primeiro, o Alberto começou por me falar – dentro do tema do filocafé, que
antecipávamos já, com os primeiros surtos provindos das nossas incipientes
cogitações – do topos corporal eléctrico, o qual sapientemente consciencializado,
poderia dar uso a, por exemplo, acender as lâmpadas de uma casa telecraticamente.
Ao que respondi, sugerindo-lhe que considerasse o que Pierre Galvani descobrira já
há uns séculos, devido às suas experiências com tecidos nervosos estimulados pela
electricidade.
Após isso, um tanto de maneira a apresentar o Paulo, que estava um pouco
calado, o Alberto disse:
– Aqui o Paulo é um intelectual de primeira, um intelectual como o Heidegger!
Quando o Alberto me disse isto, rapidamente pensei: 'Ora bolas, Alberto!
Com esta, é que me tramaste! É que eu não conheço quase nada do Heidegger, sou
um autêntico ignaro nesses assuntos da ontologia e da hermenêutica, nunca li 'O Ser
e o Tempo'... estava tramado! Não sabia como responder! Ainda por cima, há aquelas
filiações macabras no partido nazi... Respondi:
– É certo que não conheço bem o Heidegger, mas acredito...
– … Acreditas? (interrompeu-me o Alberto). Acreditas? Olha que isso de
acreditar... Pois, eu não acredito em crença nenhuma!
Nesse momento, pensei: isto parece-me ser a crença de que só há... crenças!
Ora, ante a decisão, unânime entre os três, de deixarmos o café naquela
altura, pagámos o devido e saímos para tomar ar.
Foi então que, à nossa saída, passou o Danton – que, mesmo assim, é um
personagem mais simpático da Revolução Francesa –, que nos disse:
– Salut!
O Alberto respondeu-lhe:
– Salut! Liberté! Égalité! Fraternité!
Depois do Danton entrar e nós os três saírmos, O Paulo – o arrumador de
carros –, virou-se para o Alberto e disse:
– Não podias ter dito aquilo ao Danton, Alberto. Tu próprio tinhas dito, dois
minutos antes, que não acreditavas em nenhuma crença! Achas que podes dizê-lo?
(Foi a vez de eu interromper, antecipando-me ao Alberto)
– … Estou a ver agora, Alberto, porque é que o Paulo é um intelectual de
primeira...
Despedimo-nos do Paulo, que reiniciou a sua actividade da arrumação dos
carros...
E a missão do Paulo está – espero eu! – bem cumprida, neste stand-up.
Eu e o Alberto, dizia, dirigimos-nos então, a minha sugestão, ao multibanco
mais próximo. Estava lá o palhaço Batatinha que acabara de usar o cartão, tendo-o
ainda na mão.
– Olá, Palhaço Batatinha! (cumprimentei eu). Empresta-me o seu cartão, de
maneira a tirar algum dinheiro?
– Faça o favor, caro amigalhaço! Aqui tem o cartão...
Depois de ele marcar o código, levantei 10000 euros (coisa impossível: o máximo
que poderia levantar seriam 400 euros, mas estamos a fazer um tanto 'de conta'...).
Por fim, despedimos-nos do palhaço Batatinha.
– Alberto, (disse eu) vem daí comigo!
– Onde?
– Avante!
Meti-nos, assim, num táxi-carrinha, e indiquei a direcção de várias livrarias,
às quais o taxista nos levou, depois de nelas enchermos sacos com livros, os quais
colocámos na mala do táxi-carrinha.
Comprámos cerca de 700 livros, livros na maioria Clássicos, que ambos, eu e
o Alberto, considerámos que eram de incontornável leitura, muitos deles tendo-os já
lido...
– Então, Jorge? Agora, que me propuseste que te ajudasse a escolher bons
livros para comprarmos, que queres tu fazer com eles? (perguntou o Alberto)
– Não me disseste, Alberto, que um empregado de mesa, um garageiro, um
electricista (nada a priori contra qualquer destes ofícios), não são nem mais nem
menos capazes, não são nem mais nem menos intelectuais, não são nem melhores
nem piores espíritos, nem superiores nem inferiores, a um Tolstoi ou a um
Dostoievski, enquanto escritores das suas obras?
– E continuo a dizê-lo! Tu conheces-me já o suficiente, para saberes logo que
reitero...
– Então, meu caro, vamos a casa do electricista. Enchemos-lhe as estantes,
com estes livros. Suponho que tenha poucos. Assim, ficará bem abastecido.
– Embora lá! (terminou o Alberto)
Indiquei a direcção da paronhóica paranhókia de Paranhos, sendo que a casa
do electricista também se lá localizava.
O taxista disse-nos que ele próprio se chamava Travis. Tinha vindo de Paris,
no Texas, e só parara em Nova Iorque como driver, tendo predilecção pelas noites
cinéfilas da capital, onde apreciava a Cibyll Shepherd, muito nova, em 'The Last Picture
Show'.
Chegámos, enfim, à Paranhókia, a casa do electricista. Começámos, assim,
o transporte dos livros para as estantes, coisa na qual ele, a mulher e os três filhos
menores, nos ajudaram. Quando a operação ficou acabada, soltei um suspiro
profundo e exclamei:
– Pronto! Parabéns, caro amigo electricista, as tuas estantes estão cheias, vais
ter aqui muito que ler. Boas! Até logo. Vamos, Alberto!
Tendo-nos despedido do electricista e da sua família, rumámos a nossas
próprias casas, para jantar: jantar a seguir ao qual, tínhamos combinado novo
encontro.
Encontrámos-nos, assim, por volta das nove e um quarto, mesmo à porta de
minha casa, que fica no caminho da casa do Alberto para o nosso usual sítio de
reunião entre amigos, o dito café Barcarola.
Ora, quando desci, com o Alberto na porta de entrada do prédio à espera,
não nos dirigimos para o café, mas para o multibanco próximo, em sentido contrário,
para onde guiei o Alberto.
Por acaso, no multibanco estava o Salman Rushdie que tinha acabado de
levantar dinheiro para si. Disse ao Salman:
– Mr. Rushdie, do you mind? Would it be possible if you borrough your card,
to take some money, Mr. Rushdie
?
– Not at all, my friend. Go ahead! Take the money you desire!
Assim foi que, tendo ele digitado o código, levantei mais 10000 euros.
Do meu telemóvel, chamei um táxi, disse ao Alberto que me acompanhasse
(o que, com a sua habitual generosidade, logo assentiu), metemos-nos no seu interior
e, tendo dado a indicação ao taxista, fomos directos para o Aeroporto.
No Aeroporto, ficámos na lista de passageiros da viagem para Roma, onde
se situa o Vaticano, tendo pago os respectivos bilhetes. Como estes até foram bastante
baratos, sobrou-nos dinheiro bastante para meter uma 'cunha' que nos permitisse um
particular com o Papa, na manhã seguinte.
A 'cunha' resultou e, depois de um excelente pequeno-almoço, lá nos
encontrámos com Sua Santidade, a qual principiou por nos dizer:
– Meus filhos, Deus esteja convosco. O que vos traz aqui?
– (respondi-lhe) Fui eu, Sr. Papa, que tomei a iniciativa e pedi ao Alberto que
me acompanhasse para falar consigo.
– Sobre quê?
– Desejava que o amigo Alberto expusesse ao Sr. Papa a sua maneira de se
situar perante a religião, e a sua maneira de ver as coisas religiosas.
– Então, diga lá, amigo Alberto.
– É simples, senhor Papa. Eu acredito no Milagre de Fátima, mas não
acredito nos três pastorinhos!
– E em Deus, acreditas, meu filho?
– Mas está claro que acredito!
– E em mim, meu filho? Acreditas em mim?
– Isso é que... nem pensar! Não acredito numa única palavra das que o Sr.
Papa me diga!
(nesse momento fez-se um longo silêncio na sala, o qual foi interrompido pelo
do toque do meu telemóvel: era o Bruno, o nosso amigo Bruno Miguel Resende)
– Está, Bruno? Está lá? Sim! Sou eu, Bruno... Isto está a correr conforme
combinámos. Sim, sim... Agora, o Santo Padre está a reflectir sobre as iconoclastias
do Alberto. O quê? Ó, vê lá, Bruno! O Santo Padre está agora a perdoar o Alberto! Ó,
Bruno! Está a abraçá-lo! Espera aí... Está a dizer-lhe que não se importa que o Alberto
não acredite nos padres nem nas religiões, desde que continue a acreditar no basilar
sustentáculo deles... Isso, Bruno! O Santo Padre está a dizer ao Alberto que ele está
perdoado, desde que continue a acreditar em Deus! O Papa diz que, se não fosse
isso, decepá-los-ia! Ainda poderiam dar outro nome a Deus! Quiçá... Qui sait? Seria
Caput mortum! Sim – e claro! Fica contente, o Santo Papa, que o Alberto acredite nos
milagres! O quê?! Olha, Bruno: o Papa está a choramingar com o Alberto, a dizer que
ele é um santo homem! Sim, Bruno, santo!... Não... Não 'tanso', mas.... santo! Sim!
Sim... O quê?... Estamos aqui! Aqui, no Vaticano!... Não, não é no Vit'acona, Bruno; é
no Vaticano! Se voltamos para Portugal? Sim, claro, Bruno. Não vou deixar aqui o
Alberto prestes a converter-se! Sim... Sim... Olha, Bruno, combinamos uma coisa, falo
amanhã contigo e com a Fátima, por esta via, vamos falando. Voltamos – isso sim,
conta com tal – só daqui a três meses. Sim... Sim... Eu e o Alberto... Só daqui a três
meses... Não, eu trato disso! Pronto, ciao, Bruno, até amanhã! (desliguei o telemóvel)
(Entretanto, estavam o Papa e o Alberto agarradinhos a choramingar como
duas carpideiras. Foi então que arranquei o Alberto dos braços do Papa, o que o fez
despertar do seu fervoroso transe sonambúlico. Estremunhado, disse:)
– Ai! Jorge!... Que faço eu aqui?... Onde estou? Que faz esta avantesma
branca agarrada a mim? Quem é este espectro macabro de mau agoiro?
– Alberto, deixa lá! (disse eu) Descansa, foi tudo uma confusão... Ou talvez
um milagre... Vamo-nos daqui! Passe muito bom-dia, Sr. Papa. Arrivederci!
(Conduzi o Alberto, ainda meio assarapantado, pelos corredores do Vaticano
e pusémos-nos cá fora. Na entrada da Santa Sé, não por acaso, fica uma caixa de
multibanco, que foi para onde nos dirigimos).
(Encontramos lá, a levantar uma certa quantia, o deus Hermes – que foi,
talvez, o deus onde assomaram os auspícios mitológicos da electricidade – o
mensageiro de lestas sandálias, do Olimpo).
– (Voltei-me para o deus e disse-lhe) Sua Excelsa Divindade, deus Hermes
de plenos atributos e de muitas sortes e fenómenos. Será que pode conceder, aqui, a
estes dois comuns mortais em desdita financeira, algum do seu dinheirito?
– Não seja por isso, a Tique é minha amiga. Aqui têm o meu cartão...
Esperem aí... (Meteu ele mesmo o cartão, digitou o código pessoal e, com um
pequeno gesto, fez-me sinal para levantar o que quisesse. Levantei 10000 euros)
– Obrigado, deus Hermes, até à vista!
– Ao vosso dispor, sempre que quiserem. Tenho de me despachar, perdão!
Tenho uma mensagem para entregar! Adeus!
(Tendo ido embora o deus Hermes, o Alberto já olhava para mim espectante
em relação a que iniciativa tomar. Estava, por sinal, um quiosque lá perto, perto do
multibanco, um quiosque de venda de jornais. Uma notícia em parangonas
sobressaltou à nossa simultânea atenção. Disse, então, ao Alberto)
– Já viste, Alberto? Aquela notícia, ali? Naquele jornal? Estás a ver?... A
notícia?... Aquela que diz: 'Degolou a mãe e matou as irmãs!'?
– A notícia, estou a ver, Jorge, essa frase... Mas não dá para ver o resto da
notícia... Está tapada pelo jornal sobreposto um pouco mais abaixo... Mas tem um
plástico por cima... E o quiosque está fechado... Que fazemos? Esperamos que
reabra? Para lermos o resto da notícia?
– Sim, se calhar, seria interessante sabermos algo mais sobre isto. Mas
agora temos de nos despachar... Olha, um táxi! Vamos!
– Onde?
– Avante!
(Metemos-nos no táxi e indiquei o aeroporto. Durante a viagem de táxi, eu e o
Alberto conversámos sobre aquela notícia insólita)
– Então, Alberto, que dizes? (disse eu) O como é de formato jornalístico. O
que é bem evidente: um facto criminal hediondo. E o quem, Alberto? De quem se
tratará?
– Lá vens tu com o quem, Jorge! Tens a mania do quem! É o que, é o que, é
o que importa, o texto, o que está dito... Deve tratar-se de um rematado facínora
doente mental!
– Realmente, (disse eu) degolar a mãe e matar as irmãs...
– Os meus senhores (interrompeu o taxista), importam-se que eu próprio vos
esclareça um tanto sobre essa notícia que, decerto, devem ter lido nos nossos
matutinos de hoje?...
– Mas, é claro! (disse o Alberto). Continue!
– Era a si mesmo, caro Sr. Alberto, que pretendia obtemperar e esclarecer,
numa palavra, desenganá-lo!
– Siiiim... (respondeu o Alberto, um pouco surpreendido)
– Eu próprio fui amigo pessoal, durante muitos anos, do autor desses crimes
– o Sr. Pierre Rivière – e da família contra a qual ele os perpetrou. Para bom
entendedor, meia palavra basta: face às constantes canalhices e pulhices que tão mal
lhe fizeram, que a sua família, antes, havia cometido sem escrúpulos durante anos e
anos, o Sr. Rivière – digo-lho, Sr. Alberto – não poderia ter respondido de outra
maneira. Se fosse comigo, fazia muito pior! Mas, vejam, o Aeroporto! Chegámos!
(Tendo agradecido o esclarecimento do taxista, pagámos-lhe a viagem e dali
saímos para o aeroporto. Já no seu interior, adquirimos bilhetes para a próxima
viagem para a Albânia, onde se situava uma Ordem de Monges Trapistas, que nos
vinha mesmo a calhar, para que o nosso isolamento e atinente concentração fossem
absolutos).
(A viagem foi rápida. E, ao fim de um dia, tinhamos iniciado la trappe. Qual
era o meu desígnio principal, neste nosso ingresso? Que, ao fim de três meses
dedicados ao estudo heterodoxo, mas não impertinente, do budismo – repito, do
budismo – inclusive das inflexões do satori zen –, numa Ordem Trapista, alguma
solução havíamos de encontrar para muitas anteriores discussões e respectivas
interrogações, isto é, entre mim e o Alberto).
(Os três meses, a passar, propriamente, não... custaram. Mas, ao fim desse
período, sinceramente para ambos, já não queríamos outra coisa senão voltar – e não
era por saudades específicas das nossas casas! – estávamos, sim, fartos de toda
aquela beatitude monacal!)
(Por um lado, os trapistas genuínos, baseados na Imitatio Christi, de de
Kempf, esses sacerdotes ascetas, demonstravam, ainda mais que um nada de
vontade, uma vontade de... nada! Quanto a nós, e aos nossos colegas trapistas que
se dedicaram aos Upanishades ou ao Código de Manu, por exemplo, e quejandas
proveniências hindus das respostas búdicas; quanto a nós, dizia... Mas, sim, de boa
saúde espiritual, estava-mo-lo certamente! Estaríamos, na realidade? Nós estávamos
lívidos e vazios com tantos OM e Nirvanas, estávamos aquilo que, no fundo, temíamos
que um dia pudesse acontecer – estávamos estéreis! A Oeste, nenhum problema de
novo! E como, tanto eu como o Alberto, queríamos a nossa querida neurose de volta!
Dissemos ambos, àqueles precoces eunucos – os quais, na maioria, acreditavam na
reencarnação – que tínhamos sido ou guerreiros, ou combatentes, ou legionários, ou
mercenários numa vida passada... Desses lados, devia vir a nossa atávica vocação!
E, assim, nos despedimos!)
(À saída da Ordem – o que é estava lá? Mas – é claro! –: um multibanco! E
quem é que estava lá? Eu digo-vos: desta vez, era o Dalai Lama).
– Meus amigos (disse o Dalai Lama), imagino que, com a dispendiosa
inscrição nesta Ordem que vos deu guarida por três meses, estejam precisados de
dinheiro. Têm aqui, para os dois, 10000 euros. Ou preferem doláres? – É que, se
assim for, levanto já 10000 doláres!
– Não (disse eu), caro Sr. Dalai Lama, os 10000 euros estão muito bem!
Obrigado!
– Na verdade, eu mesmo me apercebi da vossa vontade avessa e apreciei-a!
Estou disposto a fazer a minha palinódia! Já componho uns pequenos trechos de
música como o velho Sócrates, pouco antes de morrer... O nosso problema era,
afinal, parecido. Mas, não vos detenho nem mais um segundo. Adeus, passem bem!
– Adeus, caro Dalai Lama, e obrigado! (respondemos os dois, em uníssono)
(Foi assim que, pelo telemóvel, chamámos um táxi, neste seguimos para o
aeroporto, e daí voltámos para Portugal)
(Já depois de reinstalados nas nossas casas, na Paranhókia, fomos a casa
do electricista – a qual tínhamos, antes, abastecido de livros. Desejávamos ambos,
tanto eu como o Alberto, saber alguma coisa das evoluções do electricista no seu
enveredar espiritual pela cultura universal e da sua transformação trimestral num
sensível intelectual. Pois, digo-vos, amigos, em voz alta e com todas a letras: QUE
DECEPÇÃO! Que vimos nós, tanto eu como o Alberto? Os livros tinham sido todos
usados para papel higiénico, para alimentar a combustão da lareira e, quanto aos
restantes, os miúdos menores usavam-nos como bolas de futebol um pouco
heterodoxas e às quais – aos livros – andavam aos chutos)
(Entretanto, havia o dinheiro que nos tinha restado, do Dalai Lama, o qual, na
realidade, eu pensara em utilizar para apoiar alguma edição de autor das primícias
literárias do electricista. Mas... Com esta Decepção! Que acabámos eu e o Alberto por
fazer? Em prol da abolição do Kapital, do universal capitalismo? Escondendo-o de
toda a gente, enterrámos o dinheiro, bem fundo, num terreno descampado. Havia que
começar por algum lado)

Jorge Taxa, Porto, 30/6/2012

domingo, 25 de março de 2012

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Natal no Serviço










(para os actores)

PERSONAGENS:
O utente anterior, na fila de espera, a Renata e a Lílite –
Renata, uma amiga da Lílite –
Lílite –
Um funcionário do Guichet –
Dr. Otto Rank –
Drª. Melanie Klein, a Directora do Serviço –
Dr. Sigmund, o chamado Dr. EstranhoAmor –

CENÁRIO:
Dividido em três áreas. Da direita para a esquerda, a primeira área com um átrio que comporta um pórtico, encimado por um dístico – "Serviço de Psiquiatria Imaginarium", e um guichet. Na segunda área – ao centro, englobando a tela –, um corredor em perspectiva, com três portas, do lado esquerdo. À esquerda, a terceira área: uma área isométrica de exíguas e cúbicas salas-consultórios.

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(para o público)

(aparece na tela o seguinte título, durante um espaço de tempo)
Lílite e o seu Destino – 1º Acto – de Jorge Taxa

(seguidamente, aparece na tela o cenário contido, que faz parte do restante papel-cenário do palco)

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(No átrio estão pessoas na fila de espera. No segundo lugar, estão duas amigas. Após o utente anterior ter sido atendido, recebido um recibo e uma receita, e tendo ido embora, é a vez delas)

Renata – Olá, bom dia. Se faz favor, diz-me se aqui é o Serviço de Psiquiatria Imaginarium?
O Funcionário do Guichet – É sim.
Renata – Podia, então, dizer-me se a utente Lílite tem agora consulta?
O Funcionário do Guichet – Deixe-me ver aqui... (procura no computador) Ahh... Pois. Tem sim, tem agora às dez horas.
Renata – Obrigada. (fala para a amiga) Estás a ver, Lílite. Tens consulta agora, às dez. Vamos sentarmo-nos ali, na sala de espera. Guiamo-nos pelo relógio.

(As duas amigas sentam-se na sala de espera, enquanto outras pessoas – figurantes – estão sentadas nas cadeiras da sala de espera do átrio. Dois doutores – a Drª Melanie Klein e o Dr. Sigmund – vêm, do exterior do Serviço, de encontro a outro – o Dr. Otto Rank, que tinha estado sempre no átrio a ler uma revista. Os três doutores cumprimentam-se)

Drª. Melanie Klein – Olá, bom dia, Dr. Otto. Então, como vai isso?
Dr. Otto Rank – Olá, bom dia, Dr.ª Melanie Klein. Tudo bem, obrigado.
Drª. Melanie Klein – Hoje, apresento-lhe um doutoríssimo chamado Dr. Sigmund, o Dr. EstranhoAmor.

(Otto e Sigmund cumprimentam-se quase em uníssono) – Olá, bom dia.

Drª. Melanie Klein – Dr. Otto, tem agora alguma consulta com pacientes?
Dr. Otto Rank – Tenho, agora, na Sala Quinze. Por sinal, chama-se Lílite…
Drª. Melanie Klein – Óptimo! Então, o Dr. Sigmund, o chamado Dr. EstranhoAmor, vai guiá-lo na sua consulta. Ele poderá exemplificar algumas das suas teorias muito avançadas. Bom dia, Dr. Otto e Dr. Sigmund. Bom trabalho aos dois.
Dr. Otto Rank e Dr. Sigmund (ao mesmo tempo) – Bom dia, Drª. Melanie.

(Despedem-se, ficando o Dr. Otto Rank e o Dr. Sigmund, e saindo Melanie Klein de cena)

Dr. Otto Rank – Venha, Dr. Sigmund. Vai acompanhar-me na consulta da Lílite.
Dr. Sigmund – Muito bem.

(Entram para uma das salas, muito apertados, e sentando-se, encolhem-se com os cotovelos na ortogonal)

Dr. Otto Rank – Faça o favor de entrar, paciente Lílite.

(Entra Lílite para a sala, onde se encolhe)

Lílite – Olá. bom dia!... Ui! Aqui está tão apertadinho… Que espaço mais pequeno!
Dr. Otto Rank – Bom dia, Lílite. Se calhar, tem razão...
Dr. Sigmund – Deixe-me prosseguir, Dr. Otto. Ouça, Lílite, por acaso você queria a consulta num estádio?
Dr. Otto Rank – Até podia ser. Podia ser uma terapêutica peripatética… O Dr. Sigmund sabe – aquela actividade do Aristóteles e dos discípulos do Liceu em que o ensino se fazia caminhando ao ar livre... Terapêutica peripatética: que acha?
Dr. Sigmund – Peri… Peri… Eu acho é que o meu caro Dr. está é a precisar da Ris… da Ris... Peri… Dona. Mas diga-me lá, Lílite, o que é que a traz por cá? Conte-nos algo…
Lílite – Às vezes, ando com saudades da era hippie…
Dr. Sigmund – Está a ver, Dr. Otto: hippie – já está visivelmente a falar do “pipi”. A sexualidade latente…
Dr. Otto Rank – Ela só estava a dizer que gosta dos hippies…
Dr. Sigmund – Mas diga-me mais, Lílite. O que é que faria nessas festas dos hippies?
Lílite – Oh! Sei lá, dançava, divertia-me com os meus amigos: com o José, com a Marília, com o Alberto, com a Renata…
Dr. Sigmund – Está a ver, Dr. Otto: “Renata”. O que é que tira daí? Renata? Renascida! Num instante, passou da sexualidade para o nascimento…
Dr. Otto Rank – Mas ela só estava a dizer que tem uma amiga chamada Renata…
Dr. Sigmund – Prossigamos. O que é que sente, Lílite, ultimamente?
Lílite – Oh! Sei lá, sinto uma grande dose de desejo.
Dr. Sigmund – Mas sente falta de quê?
Lílite – Eu? Não sinto falta de nada. Sinto só muito desejo.
Dr. Sigmund – Mas sente falta de quê, propriamente?
Lílite – Não sinto falta de nada, já lhe disse. Sinto… desejo!
Dr. Sigmund – Mas sente falta de quê?!
Lílite – Nada a menos! Desejo a mais! Estou até muito bem saciada: comi há um bocado uns espinafres como o Poppey...
Dr. Sigmund – Está a ver, Dr. Otto. Poppey é a figura paterna, os espinafres representam a mãe e, a carência que ela sente, remete para si própria…
Dr. Otto Rank – Mas ela só disse Poppey como há muitas outras coisas no mundo…
Dr. Sigmund – Já estou a ver que lhe fazia falta uma boa dose de Ziprexa, Dr. Otto. Prossigamos. Lílite, conte-me os seus últimos sonhos.
Lílite – Sonhei há poucos dias com uns lobos…
Dr. Sigmund – Está a ver, Dr. Otto: o lobo – uma figura propriamente de Elektra, "O Capuchinho Vermelho"…
Dr. Otto Rank – Mas ela não disse um só, mas vários lobos!…
Dr. Sigmund – Já vi que, ao Dr. Otto, lhe faz falta o Seroquel.
Dr. Otto Rank – Dr. Sigmund, pois, em si, acho que há uma descompensação de Haldol!

(Os dois voltam-se de costas um para o outro e assim ficam. Lílite acaba por sair do minúsculo consultório, suspirando, incompreendida. No caminho de saída encontra a amiga)

Renata – Então, Lílite. Correu bem, a consulta?
Lílite – Engraçada, Renata. Lembras-te das nossas festas hippies?
Renata – Claro que me lembro. Woodstock! Bob Dylan! Jimmy Hendrix! Janis Joplin! Led Zeppelin! Jefferson Airplane! Donovan! Olha, que tal à tarde vermos mais daqueles desenhos animados do Poppey que tenho gravados em minha casa? Podemos alterná-los com leituras de Kafka, agora que te dás ao vegetarianismo.
Lílite – E que é que isso tem a ver com o meu pai? Ou com a minha mãe? Ou até... comigo? Não achas que o vegetarianismo já existia antes de mim?
Renata – Claro que acho! Mas não estou a ver o porquê de estares a falar nos teus pais. Que é que se passa?
Lílite – Nada, nada...
Renata – Vamos lá?
Lílite – Não posso... Tenho ainda de tomar o injectável.
Renata – Façamos, então, o seguinte. Tu vais tratar disso e eu vou indo, pois é útil antecipar já umas arrumações que tenho em casa para fazer. Encontramo-nos depois. Até logo, Lílite.
Lílite – Até logo, Renata.

(Sai Renata de cena. Depois, sai Lílite. Aparece na tela, retroprojectado, o seguinte dizer)

FIM DO 1º ACTO

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(para os actores)

Personagens:
Dr. Otto Rank –
Dr. Sigmund –
Drª Melanie Klein –
John Nash –
Lílite –
Renata –
Dr. Felix Guattari –

Cenário: O mesmo de Lílite e o Seu Destino – o átrio com o pórtico a dizer "Serviço de Psiquiatria Imaginarium", o corredor, as salas – o Serviço.

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(para o público)

(seguidamente, aparece na tela retroprojectado o seguinte título)

2º Acto
– NATAL NO SERVIÇO –
Autoria das Acções – Colectiva
Coordenação Escrita: Jorge Taxa

(volta a aparecer na tela retroprojectado o cenário contido)

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Cena 1

(estão o Dr. Otto Rank e o Dr. Sigmund, Dr. EstranhoAmor, sentados cada um em sua cadeira da Sala Quinze, com ar de zangados, voltados de costas um para o outro, até que fala o Dr. Otto Rank)

Dr. Otto Rank – Dr. Sigmund, veja lá a que ponto chegámos! Mas, sugiro-lhe que nos portemos como duas pessoas decentes e profissionais competentes, e não levemos a sério uma ou outra discussão. Enfim, isso é muito natural no nosso meio...
Dr. Sigmund – Sim, concordo. Afinal, eu ultimamente tenho dado muito pouca atenção ao Acaso, quase não acredito nas coincidências... O Dr. Rank sabe, os lapsus perturbam-me..
Dr. Otto Rank – Mas não acreditar que há coincidências – isto é, não acreditar no Acaso –, pode ser um início, que pode também ser um indício, de um pensamento psicótico...
Dr. Sigmund – Tem razão, Dr. Rank. Ando perturbado. Tendo a familiarizar, a sexualizar tudo... A atribuir à falta – ou, como dizem os franceses, à manque – e às coincidências, e aos lapsus, um sentido, demasiado pesado...
Dr. Otto Rank – Hoje, é mais comum-mente reconhecido, na disciplina psiquiátrica, que o delírio não tem origem, necessariamente, na triangulação edipiana, mas é mais propriamente histórico-mundial, feito de mitos e heróis. E sabe-se que o desejo é positivo, não correspondendo a "uma carência"...
Dr. Sigmund – Peço-lhe mil escusas, pela minha inactualidade.
Dr. Otto Rank – Mas, veja! O Dr. Jacques Lacan propôs um retorno às suas teorias – as freudianas, meu caro Dr. Sigmund –. Ele está ali (aponta), na Sala Seis, com a utente Carole (aponta), esta bela rapariga, do filme de Roman Polansky: ela sente, antes de mais nada, "repulsa"...
Dr. Sigmund – Vejo que desta Sala do Serviço de Psiquiatria Imaginarium dá para nos apercebermos do que se passa no interior de cada um dos consultórios que o constituem. É engraçado! Só vemos as cabeças!
Dr. Otto Rank – Sim, esta arquitectura do Serviço Imaginarium é de um arquitecto holandês da vanguarda, em que as paredes são todas de vidro e insonorizantes para o exterior. Tudo se passa como se fosse uma arquitectura transparente, cristalina – como aquele político português que escreveu "O Partido Com Paredes de Vidro".
Dr. Sigmund – Ah! Sim, claro, o revolucionário Álvaro Cunhal. Mas aqui, no Serviço Imaginarium, vejo que tem doentes muito famosos. Vejo ali (aponta) Vincent Van Gogh.
Dr. Otto Rank – Sim, acompanha-o (aponta) o Dr. Gachet. Não são só utentes famosos, todo o pessoal médico é constituído por altas eminências da psiquiatria. Quanto aos utentes, encontra-os – o Dr. Sigmund – não só reais, mas irreais, pois a nossa ciência permitiu encarná-los. São saídos de filmes e de obras da literatura.
Dr. Sigmund – Caracteres, sejam quais forem: pessoas reais, personagens ficcionais...
Dr. Otto Rank – Sim. Por exemplo: ali, nas salas laterais, encontra também (aponta) o utente Norman Bates – do filme "Psycho", de Hitchcock –, fatalmente determinado pelo carácter da sua mãe possessiva, acompanhado pelo sexólogo (aponta) Doutor Alfred Kinsey.
Dr. Sigmund – Ah, sim! O do célebre "Relatório"...
Dr. Otto Rank – Mais: (aponta) o utente Truman – do filme "Truman Show", de Peter Weir –, supostamente saído de um show montado por um arquitecto, acompanhado pelo reflexologista (aponta) Doutor Ivan Pavlov, que está a estudar os seus "reflexos condicionados".
Dr. Sigmund – Sim, vejo ali, na Sala Oito, também, (aponta) o meu colega da "psicologia analítica", o Dr. Carl Jung e, mais acima, na Sala Quatro, (aponta) o colega da "psicologia individual", o Dr. Alfred Adler. Quem é o seu paciente?
Dr. Otto Rank – É João de Deus (aponta), alter-ego de João César Monteiro, vindo das "Recordações da Casa Amarela".
Dr. Sigmund – Diagnosticado com "esquizofrenia paranóide", temos ali – já o conhecia –, (aponta) acima de Adler, na Sala Dois, o utente Trelkovsky. É um inquilino que julga que os vizinhos estão a coludir para o seu suicídio, transformando-o na anterior locatária.
Dr. Otto Rank – Isso lembra-me uma história...
Dr. Sigmund – Sim, claro. É a inesquecível trama do filme "O Inquilino", de Polansky. E nestas salas à direita?
Dr. Otto Rank – Aqui, na Sala Nove, encontra o poeta-dramaturgo francês, (aponta) Antonin Artaud, acompanhado pelo seu Doutor Ferdière (aponta). Ferdière também é o médico da conceituada poeta-artista plástica Unica Zurn (aponta)...
Dr. Sigmund – Mas ela está a ser acompanhada actualmente, nesta Sala Sete, pelo (aponta) behaviorista – que eu conheço – John Watson, o qual tentará basear-se somente nos comportamentos da utente. E nesta (aponta)? A Sala Cinco?...
Dr. Otto Rank – Aqui, em cima, na Sala Cinco (aponta), encontra o utente-poeta português, Ângelo de Lima, com o Doutor Miguel Bombarda (aponta): o qual achou, na sua fisionomia, um enorme filão psiquiátrico...
Dr. Sigmund – Aqui, em baixo (aponta), ainda vejo a conturbada – devido a excesso de álcool – Amy Winehouse. E quanto àqueles, ali, à esquerda, à espera levantados, quem são?
Dr. Otto Rank – São, ali (aponta) R.P. McMurphy, que diz estar "Voando Sobre Um Ninho de Cucos...". A seguir (aponta), Camille Claudel, escultora promessa de Rodin...
Dr. Sigmund – Irmã do fluente Paul Claudel. Aquele conheço (aponta). É Bartleby, saído da pena de Herman Melville, que antecipa todas as frases com a palavra "preferia". Restam-nos os doentes da sala de espera. Quem são?
Dr. Otto Rank – Temos ali, da esquerda para a direita, sentados, (aponta) o utente James Cole, que diz ter "Doze Macacos". (aponta) A utente Ida Dalser, que diz ser a mulher de, e ter um filho de, Benito Mussolini.
Dr. Sigmund – Ah, sim! Marco Beloccio conta-nos a história dela no filme "Vincere"...
Dr. Otto Rank – Pois. E temos, a seguir (aponta), a utente Zhanna, apaixonada por Bryan Adams.
Dr. Sigmund – Andrey Konchalovskiy faz dela a protagonista da pitoresca "Casa de Loucos"...
Dr. Otto Rank – E, por fim, (aponta) a utente Janet Frame, que tenta ser "Um Anjo À Nossa Mesa".
Dr. Sigmund – Carácter ficcional surtido da visão já pós-modernista de Jane Campion.
Dr. Otto Rank – Mas, Dr. Sigmund, aproveito e chamo agora o próximo utente a ter consulta. Que diz?
Dr. Sigmund – Claro, força nisso!
Dr. Otto Rank – Chamo à Sala Quinze o utente John Nash.

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Cena 2

(entra John Nash para a Sala Quinze)

Dr. Otto Rank – Olá, bom dia, John Nash.
Dr. Sigmund – Olá, bom dia, senhor John Nash.
John Nash – Olá, bom dia. Happy Christmas, como se diz na minha terra!
Dr. Otto Rank – Bom Natal, senhor Nash! Então? Diga-nos lá que tal é que correm as coisas...
John Nash – Correm bem, Doutor. A minha matemática está cada vez mais evoluída.
Dr. Sigmund – Ah! O senhor Nash gosta de matemática?
John Nash – Sim, é a minha área. Mas há jogos interessantes e também gosto de jogos. Por exemplo, como considerar – como uma poetiza-pensadora e deputada-apresentadora portuguesa já falecida, chamada Natália Correia – que "Um mais um é igual a um".
Dr. Sigmund – Eu também gosto bastante de matemática. Sugiro, John Nash – para fazer uma demonstração dos meus conhecimentos e deixá-lo mais à vontade, de modo a explanar-se na conversa –, que eu ponha agora em prática um verdadeiro ilusionismo, ou uma magia, ou uma prestidigitação, ou um truque matemático. Pode ser?
John Nash – Pode, claro, estou curioso. Força nisso!
Dr. Sigmund – Vou solicitar aos espectadores desta peça teatral, cada um à vez, um algarismo.
(o Dr. Sigmund procede em conformidade, solicitando aos espectadores “um algarismo?”)

Primeiro espectador – (de 0 a 9) a.
Segundo espectador – (de 0 a 9) b.
Terceiro espectador – (de 0 a 9) c.
Quarto espectador – (de 1 a 8) d.

(o Dr. Sigmund escreve num papel, para todos verem, "abcd", mostrando ao público. E faz, em seguida, de cabeça, a conta abcd – a)

Dr. Sigmund – Então, eu digo que a,bcdbcdbcdbcdbcd... = abcd – a /999

(confirma-se na calculadora do computador retroprojectada)

(o Dr. Sigmund faz de cabeça a conta abcd – ab)

Dr. Sigmund – Agora, digo que ab,cdcdcdcdcd... = abcd – ab /99

(confirma-se na calculadora do computador retroprojectada)

John Nash – Parabéns, Dr. Sigmund. Sinto-me, assim, mais confortável, no meio de gente tão racionalista – dado que a matemática também é uma espécie de lógica...
Dr. Otto Rank – Então, diga-nos, John Nash. Por falar em "lógica"... Como vai aquela história da "perseguição dos Serviços Secretos"?
John Nash – Ah!... Quanto a isso, esteja descansado, Doutor. Fiz o meu insight! Compreendo agora que padeço naturalmente de um desiquílibrio, a nível de dopamina, no cérebro, e que, se não for suprido artificialmente com um neuroléptico, faz-me descompensar e delirar. É a "boa nova" natalícia que tenho para transmitir ao Doutor.
Dr. Otto Rank – Isso parece-me um progresso, uma evolução. Parabéns, Nash! E quanto à saúde física? A idade apoquenta?
John Nash – Um achaque ou outro, mas nada de especial. Vai tudo bem, obrigado.
Dr. Otto Rank – Já tomou o injectável?
John Nash – Já, Doutor. Encontrei lá a minha amiga Lílite...
Dr. Sigmund – E quanto aos sintomas secundários: quero dizer, da medicação...
John Nash – Tudo bem, Doutor. Menos tremores e menos acatísia.
Dr. Otto Rank – Então, vejo que só nos resta desejar-lhe um Happy Christmas, e... Quer juntar-se a nós e almoçar connosco?
John Nash – Sim, mas concerteza. Já estou com apetite.
Dr. Otto Rank – Então, vamos a isso. Vamos, Dr. Sigmund?
Dr. Sigmund – Sim, um simpósio – ou banquete, para os antigos Gregos – natalício. Vamos!

(saem os doutores Otto e Sigmund, e John Nash, da Sala Quinze. Entretanto, Lílite, que havia entrado em cena, dirige-se de encontro a eles. Encontram-se os quatro à frente da tela, a meio do caminho. Fala o Dr. Otto)

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Cena 3

Dr. Otto Rank – Olá, Lílite! Ainda por aqui? Queríamos pedir-lhe desculpa por, há pouco, termos sido um tanto incompreensivos consigo...
Lílite – Não faz mal, Doutor. Todos temos os nossos dias. Sei que os médicos não são feitos de pedra, nem de ferro, nem de plástico, nem de nada inorgânico... São pessoas como nós!
Dr. Sigmund – Obrigado pela atenção, Lílite, no que toca, principalmente, à minha parte...
Dr. Otto Rank – Mas com proposições psicológicas tão interessantes e tão espirituosas, só posso convidar também a nossa paciente, Lílite, a juntar-se a nós e almoçar connosco, aqui, na Cantina do Serviço Imaginarium. Que diz, Lílite?
Lílite – Por mim, pode ser. Tudo bem!
Dr. Otto Rank – Então, assim seja. Vamos ao almoço!

(passam os quatro, por assim dizer, a "caminhar parados", como se estivessem a pisar uvas, frente à tela, a meio da boca de cena. Duas pessoas vestidas de funcionários do Serviço trazem, para esse mesmo centro do palco, para próximo dos quatro, uma mesa, coberta por uma toalha, com víveres natalícios e talheres sobrepostos. Os quatro vão buscar as três cadeiras da Sala Quinze, e uma cadeira da Sala de Espera, e instalam-nas em redor da mesa, sentando-se nelas. Fala o Dr. Otto Rank)

Dr. Otto Rank – Então, Dr. Sigmund, Lílite e John Nash. Que acham desta pantagruelice? Ao dispor da nossa... gulodice?!
Dr. Sigmund – Está muito bem! Parabéns ao Serviço Imaginarium! Eu gosto do Bolo-Rei!
Lílite – Eu prefiro estes mexidos!
John Nash – Para mim, três rabanadas com mel!
Dr. Otto Rank – Eu vou pelo arroz-doce!... Eu consideraria que, os parabéns, o Dr. Sigmund deve dá-los, por esta data, não ao Serviço Imaginarium, mas a Jesus e a todos os que nasceram pelo Natal. Mas, vejam: a Drª. Melanie Klein está a chegar...

(irrompem em cena a Drª. Melanie Klein com a Renata, que entretanto pegam em duas cadeiras, das da sala de espera, e juntam-se à mesa)

Drª. Melanie Klein – Olá, boa tarde a todos. Peço desculpa pelo atraso...
Dr. Otto Rank – Que não foi quase nenhum! Sugiro que se junte a nós. Vejo que traz uma companhia...
Drª. Melanie Klein – Sim, é a Renata, que estava à sua procura, Lílite, e eu disse-lhe que devia andar ainda por aqui. Afinal, encontrámo-la!
Dr. Otto Rank – Cinco é o número de letras de Jesus; seis é o número de letras de Cristo. Já somos seis à mesa...
Drª. Melanie Klein – Não, Doutor Otto! Sete! Sete, que é o número de letras de Emanuel. E o sétimo – que deve estar quase a chegar – é o Doutor Felix Guattari, vindo da Clínica La Borde...

(irrompe, entretanto, em cena o Dr. Felix Guattari)

Dr. Felix Guattari – Estão a falar em mim? Olá, boa tarde!
Drª. Melanie Klein – Olá, boa tarde, Doutor Felix! Como vai, esse "Chaosmos"? E os seus colegas da antipsiquiatria, o Doutor David Cooper e o Doutor Ronald Laing?
Dr. Felix Guattari – Ficaram – como já lhe tinha dito – num almoço natalício com o filósofo Michel Foucault. Debaterão, decerto, sobre a História da Loucura.
Dr. Sigmund – Gostava de agradecer-vos a todos, meus amigos. Lembro-me – agora, que é Natal – de um cântico da minha infância...
Dr. Otto Rank – Sugiro que nos dê o mote inicial e, a seguir, cantemos todos juntos.
Dr. Felix Guattari – Por acaso, este Serviço Imaginarium, tem um piano? Eu poderei dar as tónicas...

(trazem um teclado para um local do palco apropriado e aparece, retroprojectada do computador, a seguinte letra do tema "Os Pais Natais", do album "Os Amigos de Gaspar", de Sérgio Godinho)

"Já que é já Natal, –
Se um Pai Natal houver –
Mais que dois ou três, então, à vez –
Podemos ser, sei lá –
O Pai Natal sempre de alguém –
De quem não tem direito ao seu presente –
Resplandecente..."

Dr. Sigmund – (canta) Já que é já Natal, se um Pai Natal houver – mais que dois ou três, então, à vez – podemos ser, sei lá – o Pai Natal sempre de alguém – de quem não tem direito ao seu presente – resplandecente...

Todos – (cantam) Já que é já Natal, se um Pai Natal houver – mais que dois ou três, então, à vez – podemos ser, sei lá – o Pai Natal sempre de alguém – de quem não tem direito ao seu presente – resplandecente...

FIM

sábado, 26 de novembro de 2011

Jorge Barreto Sobre Lílite e o Seu Destino / NATAL-IMAGO

A IDEIA DA PEÇA É BOA, CONTUDO, PODES E SABES FAZER MUITO MELHOR. ASSIM, AQUI VÃO AS CRÍTICAS:

– NÃO EXISTE CONTEXTUALIZAÇÃO DAS INFORMAÇÕES, FACTOS OU DADOS QUE PERMITAM CHEGAR ONDE O AUTOR PRETENSAMENTE NOS QUER LEVAR;

– AS PERSONAGENS DEVEM SER MAIS FORTES;

– OS DIÁLOGOS SÃO POUCO CONSISTENTES. APENAS DEMONSTRAM A CULTURA DO AUTOR. HAVENDO UM MERO INDICIAR OU NOMEAÇÃO DE SITUAÇÕES;

– CONFUSÃO ENTRE TEATRO, CINEMA E TEXTO (CORRIDO OU DECLAMADO)

– NÃO HÁ RESPEITO PELAS REGRAS DA ESCRITA DE TEATRO (FALTA DE DOMÍNIO?);

– NÃO HÁ NOÇÃO DE ESPAÇO CÉNICO.

ATENCIOSAMENTE,
DO AMIGO
JORGE BARRETO

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

2ª versão do 2º e último Acto - NATAL NO SERVIÇO

(para os actores)

Personagens:
Dr. Otto Rank –
Dr. Sigmund / John Ballantyne –
Drª Melanie Klein –
John Nash –
Lílite –
Renata –
Dr. Alexander Brulov –

Cenário:
O mesmo de Lílite e o Seu Destino – o átrio com o pórtico a dizer "Serviço de Psiquiatria Imaginarium", o corredor, as salas – o Serviço.

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(para o público)

(aparece na tela retroprojectado o seguinte título)

2º Acto, 2ª Versão
– NATAL NO SERVIÇO –

(volta a aparecer na tela retroprojectado o cenário contido)

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Cena 1

(estão o Dr. Otto Rank e o Dr. Sigmund, Dr. EstranhoAmor, sentados cada um em sua cadeira, com ar de zangados, voltados de costas um para o outro, até que fala o Dr. Otto Rank)

Dr. Otto Rank – Dr. Sigmund, veja lá a que ponto chegámos! Mas, sugiro-lhe que nos portemos como duas pessoas decentes e profissionais competentes, e não levemos a sério uma ou outra discussão. Enfim, isso é muito natural no nosso meio...
Dr. Sigmund – Sim, concordo. Afinal, eu ultimamente tenho dado muito pouca atenção ao Acaso, quase não acredito nas coincidências... O Dr. Rank sabe, os lapsus perturbam-me..
Dr. Otto Rank – Mas não acreditar que há coincidências – isto é, não acreditar no Acaso –, pode ser um início, que pode também ser um indício, de um pensamento psicótico...
Dr. Sigmund – Tem razão, Dr. Rank. Ando perturbado. Tendo a familiarizar, a sexualizar tudo... A atribuir à falta – ou, como dizem os franceses, à manque – e às coincidências, e aos lapsus, um sentido, demasiado pesado...
Dr. Otto Rank – Hoje, é mais comum-mente reconhecido, na disciplina psiquiátrica, que o delírio não tem origem, necessariamente, na triangulação edipiana "eu-papá-mamã", mas é mais propriamente histórico-mundial, feito de mitos e heróis.
Dr. Sigmund – A palavra agora é "agenciamentos". Não é?
Dr. Otto Rank – Isso mesmo, agenciamentos do espaço exterior. Sabe-se também que não há um recalcamento filial com "desejo de morte" associado, em relação ao pai, mas que, a ostensividade inicial, é a paterna em relação ao filho. E que o desejo é positivo, e não corresponde a "uma carência"...
Dr. Sigmund – Peço-lhe mil escusas, pela minha inactualidade.
Dr. Otto Rank – Mas, veja! O Dr. Lacan propôs um retorno às suas teorias, meu caro Dr. Sigmund. Ele está ali, na sala seis, com a utente Carole: que sente, antes de mais nada, "repulsa"...
Dr. Sigmund – Vejo que desta sala do Serviço de Psiquiatria Imaginarium dá para nos apercebermos do que se passa no interior de cada um dos consultórios que o constituem. É engraçado! Só vemos as cabeças!
Dr. Otto Rank – Sim, esta arquitectura do Serviço Imaginarium é de um arquitecto holandês da vanguarda, em que as paredes são todas de vidro e insonorizantes para o exterior. Tudo se passa como se fosse uma arquitectura transparente, cristalina – como aquele político português que escreveu O Partido Com Paredes de Vidro.
Dr. Sigmund – Mas aqui, no Serviço Imaginarium, vejo que tem doentes muito famosos. Vejo ali Vincent Van Gogh.
Dr. Otto Rank – Sim, acompanha-o o Dr. Gachet. Não são só utentes famosos, todo o pessoal médico é constituído por altas eminências da psiquiatria. Quanto aos utentes, encontra-os – o Dr. Sigmund – não só reais, mas irreais (pois a nossa ciência permitiu encarná-los), saídos de filmes e de obras da literatura.
Dr. Sigmund – Caracteres, sejam quais forem: pessoas reais, personagens ficcionais...
Dr. Otto Rank – Sim. Por exemplo: ali, nas salas laterais, encontra também o utente Norman Bates, fatalmente determinado pelo carácter da sua mãe possessiva, acompanhado pelo sexólogo Dr. Alfred Kinsey. E o utente Truman, supostamente saído de um show montado por um arquitecto, acompanhado pelo reflexologista Dr. Ivan Pavlov, que está a estudar os seus "reflexos condicionados".
Dr. Sigmund – Sim, vejo ali, na sala oito, também, o meu colega da "psicologia analítica", o Dr. Carl Jung e, mais acima, na sala quatro, o colega da "psicologia individual", o Dr. Alfred Adler. Quem é o seu paciente?
Dr. Otto Rank – É João de Deus, vindo da "Casa Amarela". Diagnosticado com "esquizofrenia paranóide", temos ali, acima de Adler, na sala dois, o utente Trelkovsky. É um inquilino que julga que os vizinhos estão a coludir para o seu suicídio, transformando-o na anterior locatária.
Dr. Sigmund – E nestas salas à direita?
Dr. Otto Rank – Aqui, na sala nove, encontra o poeta-dramaturgo Antonin Artaud, acompanhado pelo Dr. Ferdière. Ferdière também é o médico da conceituada Unica Zurn, mas ela está a ser acompanhada actualmente, nesta sala sete, pelo behaviorista John Watson, que tenta basear-se somente nos comportamentos da utente.
Dr. Sigmund – E nesta? A sala cinco?...
Dr. Otto Rank – Aqui, em cima, na sala cinco, encontra o utente poeta Ângelo de Lima com o Dr. Miguel Bombarda, que achou, na sua fisionomia, enorme filão psiquiátrico...
Dr. Sigmund – E quanto àqueles, ali, à esquerda, à espera, levantados?
Dr. Otto Rank – São R.P. McMurphy, que diz estar "num Ninho de Cucos...". Camille Claudel, escultora promessa de Rodin e irmã do fluente Paul Claudel. E, por fim, Bartleby, saído da pena de Herman Melville, que antecipa todas as frases com a palavra "preferia".
Dr. Sigmund – Restam-nos os doentes da sala de espera. Quem são?
Dr. Otto Rank – Temos, da esquerda para a direita, sentados, o utente James Cole, que diz ter "doze macacos". A utente Ida Dalser, que diz ser a mulher de, e ter um filho de, Benito Mussolini. A utente Zhanna, apaixonada por Bryan Adams. E, por fim, a utente Janet Frame, que tenta ser "um anjo à nossa mesa". Mas, Dr. Sigmund, aproveito e chamo agora o próximo utente a ter consulta. Que diz?
Dr. Sigmund – Claro, força nisso!
Dr. Otto Rank – Chamo à sala quinze o utente John Nash.

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Cena 2

(entra John Nash para a sala quinze. NOTA: John Nash traz uma gravata às riscas)

Dr. Otto Rank – Olá, bom dia, John Nash.
Dr. Sigmund – Olá, bom dia, senhor John Nash.
John Nash – Olá, bom dia. Happy Christmas, como se diz na minha terra!
Dr. Otto Rank – Bom Natal, senhor Nash! Então? Diga-nos lá que tal é que correm as coisas...
Dr. Sigmund – Espere, Dr. Otto. A sua gravata, senhor Nash... Essas riscas...
John Nash – Ora essa! Mas as gravatas às riscas são as minhas favoritas!
Dr. Otto Rank – Que se passa, Dr. Sigmund? As riscas da gravata do senhor Nash perturbam-no?...
Dr. Sigmund – Deixe, Dr. Otto. Essas riscas... Não, deixe lá. Eu controlo-me, prometo. Estejam descansados, não se preocupem comigo. Mas diga, senhor Nash... As coisas correm bem?
John Nash – Correm bem, Dr. A minha matemática está cada vez mais evoluída.
Dr. Sigmund – Ah! O senhor Nash gosta de matemática?
John Nash – Sim, é a minha área. Mas há jogos interessantes e também gosto de jogos. Por exemplo, como considerar – como uma pensadora-poetiza e deputada-apresentadora portuguesa já falecida, chamada Natália Correia – que "um mais um é igual a um".
Dr. Sigmund – Eu também gosto bastante de matemática. Sugiro, John Nash – para fazer uma demonstração dos meus conhecimentos e deixá-lo mais à vontade, de modo a explanar-se na conversa –, que eu ponha agora em prática um verdadeiro ilusionismo, ou uma magia, ou uma prestidigitação, ou um truque matemático. Pode ser?
John Nash – Pode, claro, estou curioso. Força nisso!
Dr. Sigmund – Vou solicitar aos espectadores desta peça teatral, cada um à vez, um algarismo.

(o Dr. Sigmund procede em conformidade, solicitando aos espectadores “um algarismo?”)

Primeiro espectador – (de 0 a 9) a.
Segundo espectador – (de 0 a 9) b.
Terceiro espectador – (de 0 a 9) c.
Quarto espectador – (de 1 a 8) d.

(o Dr. Sigmund escreve num papel, para todos verem, "abcd", mostrando ao público. E faz, em seguida, de cabeça, a conta abcd – a)

Dr. Sigmund – Então, eu digo – não sem que essas riscas me desconcentrem um bocado... – que a,bcdbcdbcdbcdbcd... = abcd – a /999

(confirma-se na calculadora do computador retroprojectada)

(o Dr. Sigmund faz de cabeça a conta abcd – ab)

Dr. Sigmund – Agora, digo – também não sem a desconcentração proveniente das riscas... – que ab,cdcdcdcdcd... = abcd – ab /99

(confirma-se na calculadora do computador retroprojectada)

John Nash – Parabéns, Dr. Sigmund. Sinto-me, assim, mais confortável, no meio de gente tão racionalista – dado que a matemática também é uma espécie de lógica...
Dr. Otto Rank – Então, diga-nos, John Nash. Por falar em "lógica"... Como vai aquela história da "perseguição dos Serviços Secretos"?
John Nash – Ah!... Quanto a isso, esteja descansado, Doutor. Fiz o meu insight! Compreendo agora que padeço naturalmente de um desiquílibrio, a nível de lítio e serotonina, no cérebro, e que, se não for suprido artificialmente com um neuroléptico, faz-me descompensar e delirar. É a "boa nova" natalícia que tenho para transmitir ao Doutor.
Dr. Otto Rank – Isso parece-me um progresso, uma evolução. Parabéns, Nash! E quanto à saúde física? A idade apoquenta?
John Nash – Um achaque ou outro, mas nada de especial. Vai tudo bem, obrigado.
Dr. Otto Rank – Já tomou o injectável?
John Nash – Já, Doutor. Encontrei lá a minha amiga Lílite...
Dr. Sigmund – E quanto aos sintomas secundários: quero dizer, da medicação...
John Nash – Tudo bem, Doutor. Menos tremores e menos acatísia.
Dr. Otto Rank – Então, vejo que só nos resta desejar-lhe um Happy Christmas, e deixá-lo ir à sua vida.
John Nash – Bom Natal, Doutores, e boas Entradas em 2012! Passai bem!
Dr. Otto Rank – Adeus, Bom Natal! Até à vista!
Dr. Sigmund – Bom Natal, senhor Nash!

(sai John Nash de cena. Ficam, ainda na sala quinze, os doutores Otto e Sigmund. Fala o Dr. Otto Rank)

Dr. Otto Rank – Olhe, Dr. Sigmund. Eu combinei, hoje, pela manhãzinha, com a Drª. Melanie Klein, almoçarmos juntos. E... Está na hora do almoço. Quer juntar-se a nós e almoçar connosco?
Dr. Sigmund – Sim, mas concerteza. Estou com apetite.
Dr. Otto Rank – Então, vamos a isso.

(saem os doutores Otto e Sigmund da sala quinze. Entretanto, Lílite, que havia entrado em cena, dirige-se de encontro a eles. Encontram-se os três à frente da tela, a meio do caminho. Fala o Dr. Otto)

************************************************************************************************************

Cena 3

Dr. Otto Rank – Olá, Lílite! Ainda por aqui? Queríamos pedir-lhe desculpa por, há pouco, termos sido um tanto incompreensivos consigo...
Lílite – Não faz mal, Doutor. Todos temos os nossos dias. Sei que os médicos não são feitos de pedra, nem de ferro, nem de plástico, nem de nada inorgânico... São pessoas como nós!
Dr. Sigmund – Obrigado pela atenção, Lílite, no que toca, principalmente, à minha parte...
Dr. Otto Rank – Mas com proposições psicológicas tão interessantes e tão espirituosas, só posso convidar também a nossa paciente, Lílite, a juntar-se a nós e almoçar connosco, aqui, na Cantina do Serviço Imaginarium. Que diz, Lílite?
Lílite – Por mim, pode ser. Tudo bem!
Dr. Otto Rank – Então, assim seja. Vamos ao almoço!

(passam os três, por assim dizer, a "caminhar parados", como se estivessem a pisar uvas, frente à tela, a meio da boca de cena. Duas pessoas vestidas de funcionários do Serviço trazem, para esse mesmo centro do palco, para próximo dos três, uma mesa, coberta por uma toalha, com víveres natalícios e talheres sobrepostos – entre os quais, garfos. Os três vão buscar as três cadeiras da sala quinze e instalam-nas em redor da mesa, sentando-se nelas. Fala o Dr. Otto Rank)

Dr. Otto Rank – Então, Dr. Sigmund e Lílite. Que acham desta pantagruelice? Ao dispor da nossa... gulodice?!
Dr. Sigmund – Está muito bem! Parabéns ao Serviço Imaginarium! Eu gosto do Bolo-Rei!
Lílite – Eu prefiro estes "mexidos"!
Dr. Otto Rank – Eu vou pelo "arroz-doce"!... Eu consideria que, os parabéns, o Dr. Sigmund deve dá-los, por esta data, não ao Serviço Imaginarium, mas a Jesus – Emanuel – e a todos os que nasceram pelo Natal. Mas, vejam: a Drª. Melanie Klein está a chegar...

(irrompe em cena a Drª. Melanie Klein, que entretanto pega numa cadeira, das da sala de espera, e junta-se à mesa)

Drª. Melanie Klein – Olá, boa tarde a todos. Peço desculpa pelo atraso...
Dr. Otto Rank – Que não foi quase nenhum! Mas... Sugiro que se junte a nós. Sente-se, Drª. Melanie. Bom apetite!

(a Drª. Melanie senta-se e todos começam a comer. Enquanto comem, fala Lílite)

Lílite – Vou contar-vos uma história engraçada. Há cerca de semana e meia atrás, o Juvenal, o namorado da minha amiga Margarida, ofereceu-lhe – por ocasião do seu aniversário – um gatito de estimação. Mas "a peste", a primeira marca que deixou, foi uma cicatriz que a Margarida agora tem, na parte superior do antebraço – umas linhas paralelas... Muito paralelas e longilíneas...
Drª. Melanie Klein – Eu posso tentar exemplificar. Será assim, a cicatriz?...

(a Drª. Melanie Klein raspa, com o garfo, a toalha da mesa, num sentido longilíneo, para exemplificar)

Dr. Sigmund – (bruscamente) Deve haver uma reserva de toalhas inesgotável neste Serviço!

(pausa breve)

Drª. Melanie Klein – Dr. Sigmund! O que é que lhe deu?...
Dr. Otto Rank – Eu sei... Devem ser as riscas... Que o perturbam... Há pouco, pensei que fosse excesso de "transferência". Mas não – agora, entendo: são as riscas...
Dr. Sigmund – Sim, são as riscas... Perturbam-me... Essas riscas... Assustam-me!... Não tem noção da clave?... Vejam... Digo melhor: ouçam!... é perfeitamente atonal!... Já nem sei quem sou... Antes de nos sentarmos, descobri, no meu casaco, esta cigarreira – vejam – com as iniciais "J.B.", e não sei o que querem dizer...

(é então que, ainda não tinha acabado o Dr. Sigmund de dizer estas palavras, irrompe em cena o Dr. Alexander Brulov)

Dr. Alexander Brulov – ...Mas sei eu! Eu sei o que querem dizer as iniciais J.B...
Drª. Melanie Klein – Dr. Alexander Brulov! Que surpresa! Meus senhores: apresento-vos o renomado psiquiatra Dr. Alexander Brulov. Quem diria que você agora ia aparecer... do nada! E, afinal, o que é que querem dizer essas iniciais?
Dr. Alexander Brulov – Querem dizer John Ballantyne. É essa a verdadeira identidade do suposto Dr. Sigmund, com quem pensam estar a falar.
Dr. Otto Rank – Bem me queria parecer que havia aqui algo de estranho...
Dr. Alexander Brulov – Tudo se explica. Já venho, desde há algum tempo, a seguir os seus passos, caro John Ballantyne. Não se preocupe: o senhor não matou o verdadeiro Dr. Sigmund Freud. Esse está vivo e a sua saúde recomenda-se.
John Ballantyne – Vivo? Freud está vivo?... Mas isso é...
Dr. Alexander Brulov – Tenha calma. Ele e os seus amigos, antes de procederem ao seu escape dos boches nazis e traspassarem a fronteira, propagaram o boato que Freud já tinha sido executado para melhor esconder os seus planos de fuga.
John Ballantyne – Fuga. Ah!... Mas ele fugiu?...
Dr. Alexander Brulov – A execução foi um boato. Você, meu amigo, quando ouviu esse boato, – admirador autodidacta do pioneiro da Psicanálise – acreditou que tinha sido você próprio a assassinar Freud, em visível descompensação e em delírio histórico-mundial, e veio aqui parar ao Serviço Imaginarium, em presumível substituição dele...
John Ballantyne – Eu, Dr.?... Mas porquê? Com que fito?
Dr. Alexander Brulov – Para dissimular um crime que acreditava ter cometido. Mas esteja descansado, amigo: não o cometeu de todo.
Drª. Melanie Klein – No entanto, caro John Ballantine, isso não quer dizer que não esteja a precisar de medicação e de passar uns dias connosco no Internamento…
John Ballantyne – Sim, sim. Eu tinha deixado de tomar o medicamento, agora me lembro. Entrei em euforia e deu-me uma total amnésia: eu próprio acreditei ser Freud!
Dr. Alexander Brulov – E assim confundiu o suposto assassino que se julgava com o suposto assassinado: passou a ser ele...
Drª. Melanie Klein – E concorda que deve descansar uns dias aqui connosco?
John Ballantyne – Sim, não há problema. Sobretudo, fico contente por não ser nenhum criminoso e por me libertar um pouco desta situação angustiante...
Lílite – Mas, Dr. Brulov, o que é que fazia arrepios a Ballantyne: o garfo ou o atrito da toalha?
Dr. Alexander Brulov – Nem o garfo, nem o atrito, Lílite. Mas as marcas do garfo na toalha, as riscas paralelas e compridas. John Ballantyne era, antes de demonstrar sintomatologia psicótica e passar à fase nosográfica, estudante da Escola de Psicologia, nunca tendo chegado a terminar o curso...
Dr. Otto Rank – Por isso, demonstrava dotes científicos. E é muito parecido com Freud. Nem dei pela diferença...
Dr. Alexander Brulov – Sim, tem uma semelhança física enorme e dispõe de dotes científicos lógicos-matemáticos. Além disso, chegaram a dar-lhe ideias de vir a ser compositor sinfónico, por pueril e adolescente formação musical; mas ficou com uma enorme frustração por nunca ter vindo a sê-lo...
Lílite – Por isso, as linhas paralelas...
Dr. Alexander Brulov – Sim. Isso mesmo, Lílite! As linhas paralelas correspondiam à pauta. Uma pauta metia-lhe horror e impregnava-o de uma sensação de dívida, conjugação de um trauma. O paroxismo disto levou-o à amnésia total e subsequente despersonalização alienadora.
John Ballantyne – Agora, que começo a recordar-me, como John Ballantyne que sou, gostava de agradecer-vos a todos, meus amigos – sem esquecer o contributo da inestimável Lílite –. Lembro-me – agora, que é Natal – de um cântico da minha infância...

(entretanto, irrompe Renata em cena e diz)

Renata – Olá, Lílite, despachei-me mais cedo e vim buscar-te. Olá a todos, sou a Renata! Está a falar de cânticos, o senhor psiquiatra? Também posso cantar?
John Ballantyne – Bem, eu não sou psiquiatra...
Renata – Pensei que fosse... Está vestido com uma bata!
Drª. Melanie Klein – Deixe lá, Renata, não complique muito. Foi só uma confusão momentânea: tudo está resolvido. E, agora – que tudo está bem quando acaba bem –, sugiro então que você, John Ballantyne, nos dê o mote e cante o seu cântico de Natal, de modo a finalizarmos este caso com todo o agrado e o agrado de todos.

(aparece, retroprojectada do computador, a seguinte letra da canção "Os Pais Natais", do album "Os Amigos de Gaspar", de Sérgio Godinho)

"Já que é já Natal, se um Pai Natal houver –
Mais que dois ou três, então, à vez –
Podemos ser, sei lá –
O Pai Natal sempre de alguém –
De quem não tem direito ao seu presente –
Resplandecente..."

John Ballantyne – (canta) Já que é já Natal, se um Pai Natal houver – mais que dois ou três, então, à vez – podemos ser, sei lá – o Pai Natal sempre de alguém – de quem não tem direito ao seu presente – resplandecente...

Todos – (cantam) Já que é já Natal, se um Pai Natal houver – mais que dois ou três, então, à vez – podemos ser, sei lá – o Pai Natal sempre de alguém – de quem não tem direito ao seu presente – resplandecente...

FIM

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